África Diversa
Em mais de uma ocasião, ouvi o griot Sotigui Kouyaté, um dos mais respeitados portadores da palavra na cultura da África Ocidental contemporânea, dizer a pessoas que lhe pediam respostas às suas questões mais imediatas a seguinte frase: "Primeiro, você saberá quem eu sou e de onde eu vim". E, após revelar histórias, conversas e imagens sobre Burkina Faso, país onde cresceu, ele finalmente dava a resposta que todos buscavam escutar. Sotigui veio três vezes à nossa cidade, ocasiões em que muitos o ouviram.
Nesta edição do África Diversa, receberemos no Rio de Janeiro Hassane Kassi Kouyaté, griot, ator e diretor teatral; filho de Sotigui. Ele falará desta tradição, contextualizando a presença do griot na sociedade contemporânea e trará a Cia. Deux Temps, Trois Mouvements, que criou na França, com o espetáculo “The Island” . Esta peça conta a história de dois prisioneiros que utilizam o imaginário e o teatro como formas de resistência contra sua dura realidade. O tema estará presente também numa palestra do nosso homenageado: Joel Rufino dos Santos, reconhecido defensor dos direitos humanos que, numa palestra, falará sobre seus livros “Na rota dos tubarões: o tráfico negreiro e outras viagens” e “Quando eu voltei, tive uma surpresa”. No último, encontramos cartas que ele escreveu para o filho durante a ditadura, quando esteve preso. Rufino não queria que o menino pensasse que ele havia feito algo errado; as cartas destacavam seu sonho da liberdade. Como diria Guimarães Rosa:
“O que a vida quer da gente é coragem!"
Começaremos o África Diversa com as rezadeiras maranhenses que moram no Rio de Janeiro e que aqui mantêm vivas as tradições de sua terra natal. Teremos ainda Rui de Oliveira,Coralia Rodrigues, Elisa Larkin do Nascimento e Ondjaki, entre outros artistas, escritores e pesquisadores. Eles vão dividir com o público reflexões sobre diferentes temas, consolidando a abordagem diversa e consistente que buscamos para este projeto com novos olhares, questões e reflexões sobre a questão da influência africana no Brasil.
A construção deste caminho em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura nos permite a garantia da gratuidade das atividades, importante passo na democratização do acesso aos bens culturais. Esperamos, num futuro próximo, ampliar as ações para que possamos cada vez mais utilizar os espaços públicos, assim como iniciar a construção do que chamamos "a ponte do vai-e-volta", ou seja, um caminho entre o continente africano e (tirar "a cidade") o Rio de Janeiro, com forte intercâmbio cultural entre artistas de lá e de cá, reparando uma dívida histórica com as culturas que formaram a cidade e o Brasil.
Daniele Ramalho
Confira aqui a lista completa com os inscritos.
CENTRO MUNICIPAL DE ARTES CALOUSTE GULBENKIAN
Rua Benedito Hipólito 125, Pça Onze- Rio de Janeiro.
Curadoria: Daniele Ramalho